Eles descobrem no Panamá uma árvore única no mundo que já está prestes a desaparecer

Eles descobrem no Panamá uma árvore única no mundo que já está prestes a desaparecer

2026-04-22
A espécie foi identificada após mais de 20 anos de estudo, mas hoje restam apenas cinco exemplares. Uma espécie única no mundo, descoberta no Panamá e com características que desafiam a lógica da botânica tradicional, já enfrenta uma ameaça iminente: pode desaparecer antes mesmo de ser completamente compreendida pela ciência. Trata-se de Clusia nanophylla, árvore recentemente identificada por pesquisadores do Smithsonian Tropical Research Institute (STRI), cuja existência está limitada a uma área específica do país.
A descoberta não é recente no campo, mas é no seu reconhecimento científico. As primeiras amostras foram recolhidas no ano 2000 na região de Ngäbe-Buglé, mas só mais de duas décadas depois é que os cientistas confirmaram que se tratava de uma nova espécie endémica, após um extenso processo de análise, comparação e validação taxonómica. O botânico Jorge Aranda, que liderou a pesquisa, explicou que a descoberta não foi imediata, mas sim o resultado de anos de análise e revisão científica. Só cerca de 23 anos depois é que percebemos que poderíamos ter em mãos uma espécie nova e altamente endémica, disse o investigador, referindo-se ao longo processo que foi necessário para confirmar a singularidade da planta. O nome Clusia nanophylla não é coincidência. Faz referência direta a uma de suas características mais marcantes: possui as menores folhas registradas dentro do gênero Clusia, que agrupa mais de 320 espécies na América tropical e pelo menos 42 no Panamá, o que posiciona o país como um dos principais centros de diversidade deste tipo de plantas. No entanto, o que torna esta descoberta um caso crítico não é apenas a sua raridade, mas o seu estado de conservação. Quando os pesquisadores retornaram em 2024 à área onde originalmente encontraram vários espécimes, restavam apenas cinco árvores. O restante havia desaparecido, provavelmente devido ao desmatamento, à expansão de estradas e à transformação das terras para atividades como a pecuária. Aranda alertou ainda sobre o impacto direto da atividade humana no desaparecimento da espécie. Na próxima vez que fomos ao local (...) restavam apenas algumas árvores das muitas que tínhamos visto da primeira vez, afirmou, evidenciando a rápida redução da população no seu habitat natural. Esta situação coloca a espécie numa possível categoria de extinção criticamente ameaçada, segundo critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o que evidencia um paradoxo: uma planta recentemente descrita pela ciência pode já estar à beira do desaparecimento. Mas para além do seu tamanho ou da sua distribuição limitada, o género a que pertence tem uma particularidade que o torna objecto de estudo global. As espécies Clusia são as únicas árvores capazes de realizar um tipo especial de fotossíntese noturna, conhecido como metabolismo ácido de Crassulaceae ou CAM, mecanismo que lhes permite adaptar-se a condições extremas. Por sua vez, o cientista Klaus Winter, também do STRI, destacou uma das características mais surpreendentes do gênero a que pertence esta planta. As Clusias são as únicas árvores do reino vegetal capazes de fixar dióxido de carbono à noite, explicou, referindo-se à sua capacidade de realizar um tipo especial de fotossíntese incomum nas árvores. Este processo significa que, ao contrário da maioria das plantas, algumas espécies podem absorver dióxido de carbono durante a noite, reduzindo a perda de água e aumentando a sua eficiência em ambientes secos ou variáveis. Em alguns casos, podem até alternar entre este sistema e a fotossíntese tradicional, dependendo de fatores como a umidade do solo ou a disponibilidade de água. Embora ainda não tenha sido determinado se Clusia nanophylla tem essa capacidade, os pesquisadores estimam que possa ser de uma espécie com comportamento fotossintético convencional (C3), o que não reduz seu valor científico nem sua importância dentro do ecossistema. Porém, em relação à nova espécie, o especialista foi cauteloso. “Ainda não estudamos a via fotossintética da Clusia nanophylla (…) mas prevemos que será uma planta C3 normal”, disse Winter, deixando claro que ainda existem aspectos fundamentais do seu funcionamento que não foram totalmente analisados. A descoberta foi liderada pelo botânico Jorge Aranda, juntamente com uma equipa de especialistas que contou com a colaboração de especialistas internacionais da família Clusiaceae, que confirmaram tratar-se de uma espécie sem registo prévio. O processo incluiu a dissecação, medição e análise detalhada de folhas, flores e frutos, além da comparação com coleções existentes em herbários. Do ponto de vista científico, o processo de descrição de uma nova espécie é complexo e requer um trabalho detalhado que pode levar anos. É um processo árduo e que exige muito tempo, desde a recolha de amostras com todas as partes da planta (...) até à medição de tudo e à descrição de cada aspecto, explicou Aranda, sublinhando a importância de reforçar a investigação sobre biodiversidade. Um dos elementos-chave da pesquisa foi o acesso às amostras conservadas no Herbário SCZ do STRI, o que permitiu estabelecer diferenças claras entre outras espécies do mesmo gênero. Este tipo de trabalho, embora pouco visível, é essencial para compreender a real biodiversidade dos países tropicais. O caso da Clusia nanophylla também destaca um problema mais amplo: a falta de proteção eficaz de áreas com alto valor ecológico. A área onde esta espécie é encontrada não possui categoria oficial de proteção, o que facilita a intervenção humana sem grandes restrições. Para os cientistas, isto reforça a necessidade de promover políticas que permitam a conservação destes espaços antes que espécies únicas desapareçam sem sequer terem sido estudadas em profundidade. A perda de uma planta A como esta implica não só um impacto ecológico, mas também o desaparecimento de informação biológica que poderá ser fundamental para futuras investigações. Além disso, a descoberta sublinha a urgência de ter mais botânicos e taxonomistas dedicados à exploração e classificação de espécies, uma tarefa que requer anos de trabalho e que permanece limitada em muitas regiões tropicais, apesar da sua enorme riqueza natural. O próprio Aranda insistiu que esse tipo de constatação revela a necessidade de ampliação do trabalho científico na área. Quanto mais plantas identificarmos e adicionarmos às coleções, melhor poderemos compreender a biodiversidade vegetal do país, afirmou, destacando que o Panamá continua a ser um território com alto potencial de descoberta científica. O Panamá, em particular, posiciona-se como um laboratório natural onde, em pequenos espaços, é possível encontrar uma elevada concentração de espécies do mesmo gênero, o que aumenta a complexidade e o valor do seu estudo. Em alguns casos, em menos de 20 metros, podem coexistir até 10 espécies diferentes de Clusia. A descoberta de Clusia nanophylla não só expande o conhecimento científico sobre a flora tropical, mas também expõe de forma nítida a biodiversidade. Neste caso, a ciência chegou bem a tempo de nomeá-lo, mas não necessariamente de salvá-lo.

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